domingo, 19 de outubro de 2008

Roubei a atenção ou a cena?

Sentada no metrô, eu fiquei atenta a todos os movimentos do lado de fora. Borrões passavam pela janela mal ilustrada da porta mais próxima em que eu olhava. Estava tudo muito desinteressante. Foi quando notei o casal ao meu lado direito, conversavam animadamente sobre algo que estavam olhando na câmera que estava nas mãos do rapaz. A moça, ria timidamente como se a própria foto a deixasse envergonhada, e o rapaz parecia se divertir com tudo aquilo. Quando desviei meus olhos do casal, vi que alguém também me notara. No banco de frente ao casal, tinha um outro rapaz, com uma curiosidade no olhar. Assim que retribui o contato visual, ele abaixou a cabeça e em seguida correspondeu ao “psiu” que a moça da câmera fez para ele. Aquele casal então deixou de ser casal, pois afinal, era um trio de amigos, e aos poucos fui prestando atenção nas cenas que se seguiam. Cautelosa para o rapaz solitário não notar meu interesse na viagem deles ao meu lado. Pelo que percebi, a foto que tinha na câmera era do rapaz que estava sentado sozinho, a moça então estava quem sabe afim dele, porque todas as suas expressões e ações condenavam isso. O outro rapaz, dono da câmera ou não, estava ali no meio de tudo aquilo como um intrometido mesmo. Mas o tal rapaz que despertava o interesse da moça foi uma incógnita pra mim. Não soube dizer qual era a dele. O olhar dele era de curiosidade e oscilava às vezes para uma tristeza indecifrável. Ele parecia aceitar a brincadeira das fotos com sua própria imagem numa boa, mas quanto à moça... Digamos que ela seria só mais uma vítima de um interesse não correspondido. Só não compreendi muito bem por que tanto ele também me lançava olhares. Eu estava me esforçando bem, creio eu, para não olhar para eles, estava pescando tudo pelas falas e visões que o espelho da frente me gerava de onde estava sentada. Quando enfim me toquei de que minha parada estava próxima, me levantei rapidamente, peguei minha bolsa ao lado e fiquei de pé. Assim que a porta a minha frente se abriu com a brusca parada do metrô, lancei uma ultima olhada aos três, a moça e o rapaz da câmera mais uma vez entretidos com alguma foto e o rapaz solitário, ergueu o rosto pra mim e arriscou um possível e singelo sorriso pelo canto dos lábios. Eu mais do que assustada sem entender, olhei para a porta, pisei em falso, olhei pra ele novamente pra guardar aquele rosto e enfim desci. Já do lado de fora de toda aquela história que não pertencia a mim, tive compaixão pela moça que nem notou o quanto ela estava se iludindo com quem não estava dando a mínima para ela e graças a tudo aquilo, tive um resto de dia até agradável, afinal, eu já podia agora confessar pra mim mesma que o rapaz solitário tinha um belo rosto, acho que dava pra entender o fascínio que ele gerava na moça.

Um comentário:

O Profeta disse...

Este impaciente vento
Solta a espuma de um escuro mar
Mistura o pranto e o riso
Aprisionados em sal solto no ar

Indomável é a tua vontade
Alimentas o fogo da solidão
Percorres caminhos incertos
Dás inquietação a uma oração


Boa semana


Mágico beijo